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vergonha financeira: século XXI, o dinheiro é um tabu?

13 de jun. de 2020
3 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2020

A sabotadora linha tênue entre o conservadorismo financeiro e o medo do

fracasso

Meu nome é Allan, tenho 30 anos e sou formado em Relações Internacionais. Eu trabalhei em grandes multinacionais, como a Fujitsu, uma conhecida empresa japonesa de tecnologia, a Vivo, líder no mercado de telefonia no Brasil, o Grupo Pão de Açúcar, entre outras.


Mas esses são meus títulos, são meus escudos e minhas medalhas. São as coisas que

socialmente nós colecionamos para mostrar aos nossos pais, aos amigos dos nossos pais e aos nossos próprios amigos que somos, diante do olhar social, sinônimos de sucesso.

Compartilhamos as vitórias, escondemos as derrotas e as vergonhas.


Quando falamos de vergonhas, nós, como seres sociais, temos várias. Nós não queremos falar sobre quanto ganhamos, com medo da inveja e da cobiça dos outros, mas ostentamos o título de gerente, diretor ou CEO. Quando não temos isso, ostentamos a grande multinacional em que trabalhamos, afinal, isso pelo menos deve provar que somos, de alguma forma, um sucesso, pois temos vergonha de não termos sido prodígios e estarmos em um cargo de gerência aos 25. Quem não conhece uma história de sucesso como essa?


Utilizamos do nosso CEP para promover orgulho ou esconder a vergonha, afinal, não importa quão boa seja sua casa, se ela não está nas melhores regiões da cidade, você não pode usar essa medalha, ou esse rótulo.


Você já viajou para fora do país? Não? Você não conhece a Europa? Os Estados Unidos? Nunca foi para Buenos Aires? Meu deus, como não? Viagens são as novas etiquetas ou símbolos de marcas famosas que exibimos para provar que temos sucesso.


Mas o que, de fato, é ter sucesso para a maioria de nós? Ter dinheiro! E quando não temos

dinheiro? Nós temos vergonha.


Sentimo-nos envergonhados por não termos uma boa posição no trabalho, por não trabalhar em uma grande empresa, por não morarmos em um bom bairro e em uma boa casa e, por fim, por não termos viajado o mundo inteiro enquanto pagávamos nossa faculdade, aluguel e contas, tudo ao mesmo tempo. Vergonha de olharmos os vizinhos e, no comparativo social, não sermos tão bem-sucedidos quanto os que nos rodeiam.


Na busca de externalizarmos sucesso, que socialmente está conectado ao dinheiro, nós

compramos, gastamos, mudamos e viajamos, na maioria das vezes, com um dinheiro que não temos. Então, quando nos endividamos, nós vivemos nas sombras com vergonha.


Saímos com os amigos, mas só pedimos um refrigerante, pois não podemos compartilhar as porções que todos vão comer, não temos dinheiro para isso. Nosso cartão de crédito pode até não ter estourado, mas já não sabemos com que dinheiro vamos pagar a fatura do mês.


Queríamos só comer algo que estamos com vontade no mercado, mas temos que escolher

entre o essencial e o desejo, não se pode ter tudo.


Nossa família nos pede um presente, quer que paguemos aquele almoço de domingo em um restaurante que eles escolheram. Às vezes, ninguém te pede, mas insinuam que você nunca “faz uma” para ninguém, mesmo trabalhando já há um bom tempo.


“Como você não tem dinheiro para um presente de dia das mães? Impossível. Você não está trabalhando? Onde você está colocando todo o seu dinheiro? Meu deus, ela é sua mãe!” Falam como se você tivesse agredido fisicamente a sua própria mãe na frente de todos na ceia de Natal sem ela ter feito nada.


Dinheiro tem sido, durante muito tempo entre nós, sobre nossa relação com a vergonha. A

vergonha de não termos conseguido e, se conseguimos, de não termos dinheiro para todas as milhares de coisas que socialmente precisamos provar, em cada um dos níveis e círculos a que pertencemos, que somos, sim, pessoas de sucesso. Merecedoras.


Quando as dívidas são grandes, nós nos escondemos nas sombras da vergonha, vamos nos isolando, vamos deixando de comunicar, de falar, de compartilhar e de pedir ajuda. Quando nos vemos, estamos sozinhos em um canto, sem saber como chegamos ali, onde o telefone só vibra com ligações decoradas de cobranças, tentando insistir que, com qualquer valor, você consegue entrar em um acordo com o credor. A voz cordial e decorada não entende, e não faz a mínima questão de saber, que você não sabe como pagará as contas de necessidades básicas no mês que se aproxima. 


Nesse ponto você se pergunta “como eu cheguei até aqui? Onde eu errei?”. Muitos

conseguem entender, outros pedem ajuda, mas muitos não. Muitos sucumbem, destroem

famílias, relacionamentos e vidas. Por conta do dinheiro? Óbvio que não. Por conta da

vergonha.


Eu me descrevi em diversas situações que expus anteriormente. Hoje, sou capaz de entender que a vergonha me colocou naquela situação, não o dinheiro. Porque eu tinha vergonha de me mostrar vulnerável, de entender melhor como eu deveria me organizar e pedir ajuda.


Nós, como seres desta sociedade, precisamos quebrar esse tabu que construímos em relação ao dinheiro. Porque o dinheiro provoca vergonha e a vergonha está fazendo com que nós percamos momentos e vidas, que poderiam ser salvas, se não fosse pela vergonha de parecer que não temos sucesso devido à falta de dinheiro.

 
 
 

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